15 de fevereiro de 2014

quando for magra *

foto: alice duarte
Ela é linda. Tem olhos grandes e expressivos, sorriso brilhante e belos quadris. Mas quando sobe na balança e o ponteiro passa do que a sociedade julga aceitável, tudo o que ela tem de bom cai no mar do esquecimento e o foco passa a ser os quilinhos que ela "precisa" de perder. Ela diz que ainda não usa os calções que adora porque antes precisa de ficar magra. Afinal, absolutamente nada fica bonito ou sexy em gente gorda. Ela quer se formar em dança e continuar os estudos em teatro, mas continua a perder mais tempo a contar calorias do que a lutar para realizar o seu sonho. Ela precisa estar magra para viver feliz. Ela queria usar aqueles skinny jeans que viu na montra, mas não – ninguém me vai achar bonita vestida naquilo. Aliás, eu sou gordinha, então não posso ser bonita. E às vezes gostava que alguém lhe dissesse: tu és mesmo linda. Ela não percebe os olhares quando ela passa, porque está ocupada olhando-se no reflexo da porta de vidro e encontrando defeitos sem importância. Ela não se deu conta que aquela amiga magrinha que vive contando vantagem é louca pelas coxas dela. Ela não se deu conta de quanta vida está perdendo pelo simples fato de não ser magra. Aqueles inofensivos quilinhos separaram-na do sonho que sonha todos os dias e todas as noites. Do bolo que não comeu no último aniversário. Do churrasco em família, da praia com os amigos, da sessão de fotografias em que ficou do outro lado da câmara. Os dias dela estão ocupados com inibidores de apetite, aulas de aeróbica e duras sessões de autodepreciação em frente ao espelho. Eu juro que não há (absolutamente) nenhum problema em querer estar bonita – chega de hipocrisia, todos nós queremos. Não há nada de errado em ir ao ginásio ou em estar insatisfeita com o que quer que seja no nosso corpo. Mas há algo de muito errado em condicionar a nossa felicidade. Em guardar a vida para "quando for magra".

falar a sério a brincar *

foto: raquel santos
escolhi uma foto pouco séria para escrever sobre um assunto sério. a verdade é que quando falo a sério, as pessoas pensam que estou a brincar. quando estou a brincar, as pessoas pensam que é a sério. mas depois lembram-se de quem sou. sinto que as pessoas não me levam a sério. também devem pensar que eu não consigo ter uma conversa séria, mas esquecem-se das quantas já tive. lá está, nessa altura eu estava a ser séria e provavelmente pensaram que eu estava a brincar. às vezes, até eu tenho dificuldade em me levar a sério. mas sei que posso ser séria. estou a ser agora. para ser sincera, nem sei se quero que me levem a sério. assim deixava de ser a rapariga brincalhona que consegue pôr toda a gente feliz com a sua energia, uma vez que anda sempre feliz. ou pelo menos transparece isso. algumas pessoas incomodam-se por eu ser demasiado alegre. mas se eu for triste, é isso que eu vou ser: triste. outras admiram o facto de eu estar sempre alegre. eu também. admiro a minha falsa inocência, a minha rara raiva, a minha tristeza invisível, e a minha capacidade de representar uma personagem feliz. já me chegaram a dizer que transpiro alegria, que tenho mel a correr nas veias... por isso é fácil detetar quando a tristeza que me enche ultrapassa um pouco o limite. é quase como um copo que vai enchendo até transbordar. as pessoas detetam facilmente, mas pouco se importam. porque afinal de contas sou eu quem anima as pessoas, logo, é o meu trabalho animar-me a mim mesma. é o meu trabalho, só isso. e até quando vai ser ?

24 de abril de 2013

"Eu tenho a minha Loucura !"

""Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.


foto: créditos finais da peça O Artista de Samuel Gomes por Grupo de Teatro O Círculo da Associação Recreativa Os Restauradores do Brás-Oleiro

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"

Cânticos Negros, José Régio

19 de março de 2013

you don't know how strong you are until being strong is your only option *

foto: mario rui teixeira
desde cedo pensamos que temos amigos, mais tarde começamos a levar com facadas. mesmo aí pensamos que podemos confiar em todos e confiamos. essas pessoas apunhalam-nos vezes e vezes sem conta e nós perdoamos sempre. não significa que sejamos inocentes. significa que gostamos dessas pessoas e perdoamos, voltando a confiar. já a minha avó me dizia "quem te esfrega muito as costas, está só à procura do melhor sítio para espetar a faca". ao longo dos anos fui-me apercebendo do quanto verdade isso era. mas caio sempre no erro de confiar nas pessoas. confio vezes e vezes sem conta e volto a confiar. para mim, está sempre tudo bem até estar tudo mal; e até aí está tudo bem. não percebo o porquê das pessoas fazerem isso. não percebo o porquê de eu confiar. e ainda não sei se haverá por aí alguém em quem possa confiar sem ser apunhalada. e até há bem pouco tempo não sabia se havia alguém como eu. acontece que há. existe uma pessoa que me trata como uma irmã ou uma filha (não sei bem, não tenho irmãos e é quase como se não tivesse pai); uma pessoa que penso ser um "eu mais velho"; a minha alma gémea. já o conhecia há bastante tempo e nunca me tinha apercebido das nossas semelhanças. essa pessoa trata toda a gente como se fossem os seus melhores amigos, mas trata todos como se fossem apenas conhecidos. a verdade éq mostra um lado dele que não é o verdadeiro. faz transcender que confia muito nas pessoas quando na verdade sabe que todas ou 99% delas lhe vai dar uma facada. sinto que tenho de começar a fazer isso.  mas como ? aí reside a questão.

16 de março de 2013

DREAM *

foto: zé jalôto
todos os seres humanos possuem sonhos; sonhos grandes, sonhos pequenos, sonhos. sonhos nascem a cada dia, a cada hora, a cada minuto. sem percebermos, um sonho nasce dentro do nosso coração. são os sonhos que nos motivam a viver, a continuar. vivemos, na verdade, na busca da realização dos nossos sonhos. às vezes, as pessoas que até consideramos nossas amigas tentam matá-los com palavras e atos de pessimismo. acham que, se não podem realizar os seus sonhos, as outras pessoas também não podem. puro egoísmo ! muitas vezes achamos que não conseguiremos realizá-los, que eles estão muito distantes de nós. ou achamos que não merecemos... se não acreditarmos neles, acabamos por perdê-los. a realização vem pela luta, esforço e persistência. mesmo quando tudo me levou a pensar que parecia impossível, não desisti dos meus sonhos. encontrei forças que nunca pensei ter.


"If we can dream, we can make our dreams came true too.", Walt Disney.

morte lenta e dolorosa *

foto: filipa duarte
olho-me ao espelho e vejo uma rapariga que só quer dançar. tem o talento, tem a força de vontade, no entanto não tem "o corpo". quem faz da dança a sua vida, tal como eu, sabe o que isso é. sentimos-nos bem quando a nossa professora nos pede para mostrar um exercício à turma, quando nos põe a dançar à frente daquelas "filhinhas de doutores", que treinaram em academias a vida toda. temos as linhas, os pliés, as piruetas, o equilíbrio, tudo é perfeito em nós naquele momento até que ouvimos "encolha a barriga", nós encolhemos mesmo que já o estivéssemos a fazer antes. terminamos o exercício e as meninas invejosas falam de nós como se fossemos uma aberração. até que a professora nos chama à parte e diz "no fim do treino, vá à nutricionista. ela pode ter conselhos para si". o nosso mundo cai. éramos perfeitas, tínhamos tudo, mas a aparência também importa. claro que não vamos à nutricionista, temos demasiada vergonha, medo de sermos julgadas, mas mal chegamos a casa vamos a correr para a frente do espelho. vamos comer e apartamos tudo, mesmo o que é verde e deveríamos comer. a desculpa é sempre a mesma: "não tenho fome". depois de nos deitarmos e mesmo antes de adormecer, dizemos para nós mesmas "amanhã vou passar o dia a queimar calorias", e quando percebemos que é o que costumamos fazer, damos por nós a pensar "a minha mãe não está, não almoço". acabamos por adormecer a pensar em nós mesmas a dançar com um corpo perfeito, aquele que nós mesmas odiavamos por ser demasiado escletico, agora invejamo-lo, e quando acordamos, não há pequeno-almoço para ninguém. começamos a aquecer, e depois vem a bicicleta, até que é hora de almoçar, pensamos "tenho fome". abrimos o frigorífico e os nossos olhos vão diretos para o queijo, comemos uma fatia, duas. sentimo-nos culpadas e dizemos "aumento ao treino". apetece-nos um iogurte e o nosso pensamento mantem-se. comemos o iogurte completamente deliciadas. não podemos parar e vamos logo correr. pensamos que vamos ficar bem e quando damos por nós, continuamos demasiado gordas para comer e estamos demasiado fracas para emagrecer mais. a pergunta surge rapidamente "se mal me consigo segurar nos meus dois pés, como vou dançar na ponta de 1?". vamos para o treino confiantes de que a nossa professora vai dar pela diferença e quando damos por nós, o chão aproxima-se. podera, estamos deitadas no chão, completamente inconscientes. gostaríamos de saber como vamos acabar, mas não percebemos que nos estamos a matar lentamente e ao sonho que tínhamos de dançar.

o primeiro amor *

"É fácil saber se um amor é o primeiro amor ou não. Se admite que possa ser o primeiro, é porque não é, o primeiro amor só pode parecer o último amor. É o único amor, o máximo amor, o irrepetível e incrível e antes morrer que ter outro amor. Não há outro amor. O primeiro amor ocupa o amor todo.
Nunca se percebe bem por que razão começa. Mas começa. E acaba sempre mal só porque acaba. Todos os dias parece estar mesmo a começar porque as coisas vão bem, e o coração anda alto. E todos os dias parece que vai acabar porque as coisas vão mal e o coração anda em baixo.
O primeiro amor dá demasiadas alegrias, mais do que a alma foi concebida para suportar. É por isso que a alegria dói – porque parece que vai acabar de repente. E o primeiro amor dói sempre demais, sempre muito mais do que aguenta e encaixa o peito humano, porque a todo o momento se sente que acabou de acabar de repente. O primeiro amor não deixa de parte um único bocadinho de nós. Nenhuma inteligência ou atenção se consegue guardar para observá-lo. Fica tudo ocupado. O primeiro amor ocupa tudo. É inobservável. É difícil sequer reflectir sobre ele. O primeiro amor leva tudo e não deixa nada.
Diz-se que não há amor como o primeiro e é verdade. Há amores maiores, amores melhores, amores mais bem pensados e apaixonadamente vividos. Há amores mais duradouros. Quase todos. Mas não há amor como o primeiro. É o único que estraga o coração e que o deixa estragado.
É como uma criança que põe os dedos dentro de uma tomada eléctrica. É esse o choque, a surpresa «Meu Deus! Como pode ser!» do primeiro amor. Os outros amores poderão ser mais úteis, até mais bonitos, mas são como ligar electrodomésticos à corrente. Este amor mói-nos o juízo como a Moulinex mói café. Aquele amor deixa-nos cozidos por dentro e com suores frios por fora, tal e qual num micro-ondas. Mas o «Zing!» inicial, o tremor perigoso que se nos enfia por baixo das unhas e dá quatro mil voltas ao corpo, naquele micro-segundo de electricidade que nos calhou, só acontece no primeiro amor.
O primeiro beijo é sempre uma confusão. Está tudo a andar à volta e não se consegue parar. A outra pessoa assalta-nos e deixa-nos tontos, isto apesar de ser tão tímida e inepta como nós. E os nomes dos nossos primeiros amores? Os nomes doem. Parecem minúsculos milagres. Cada vez que se pronunciam, rebenta um pequeno terramoto no equador. E as mãos? Quando a mão entra na mão de quem se ama e se sente aquele exagero de volts e de pele, a única resposta sensata é o assassínio, o exílio, o suicídio. Nada fica de fora. O mundo é uma conspiração cinzenta de amores em segunda mão. Nada é puro fora daquelas mãos. O tesouro está a arder, as pessoas estão a morrer, os olhos cheios de luz estão a cegar, mas o primeiro amor é também, e sem dúvida, o primeiro amor do mundo.
O primeiro amor é aquele que não se limita a esgotar a disposição sentimental para os amores seguintes: quer esgotá-la. Depois dele, ou depois dela, os olhos e os braços e os lábios deixam de ter qualquer utilidade ou interesse. As outras pessoas – por muito bonitas e fascinantes que sejam – metem-nos nojo. Só no primeiro amor.
Não há amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, há o equivalente adulto ao primeiro amor – é o primeiro casamento; mas não é igual. O primeiro amor é uma chapada, um sacudir das raízes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e não nos explica. Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as órbitas dos olhos, do impensável calor de poder-mos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde saltamos. Saltamos e caímos. Enchemos o peito de ar, seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola de roupa, juramos fazer três ou quatro mortais de costas, e estatelamo-nos na água ou no chão, como patos disparados de um obus, com penas a esvoaçar por toda a parte.
Há amores melhores, mas são amores cansados, amores que já levaram na cabeça, amores que sabem dizer «Alto-e-pára-o-baile», amores que já dão o desconto, amores que já têm medo de se magoarem, amores democráticos, que se discutem e debatem. E todos os amores dão maior prazer que o primeiro. O primeiro amor está para além das categorias normais da dor e do prazer. Não faz sentido sequer. Não tem nada a ver com a vida. Pertence a um mundo que só tem duas cores – o preto-preto feito de todos os tons pretos do planeta e o branco-branco feito de todas as cores do arco-íris, todas a correr umas para as outras.
Podem ficar com a ternura dos 40 e com a loucura dos 30 e com a frescura dos 20 – não outro amor como o doentio, fechado-no-quarto, o amor do armário, com uma nesga de porta que dá para o Paraíso, o amor delirante de ter sempre a boca cheia de coração e não conseguir dizer outra coisa com coisa, nem falar, nem pedir para sair, nem sequer confessar: «Adeus Mariana – desta vez é que me vou mesmo suicidar.» Podem ficar (e que remédio têm) com o savoir-faire e os fait-divers e o «quero com vista pró mar se ainda houver». Não há paz de alma, nem soalheira pachorra de cafunés com champagne, que valha a guerra do primeiro amor, a única em que toda a gente morre e ninguém fica para contar como foi.
Não há regras para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser previsto, ser agendado, ser cuidado, não seria primeiro. A única regra é: Não pensar, não resistir, não duvidar. Como acontece em todas as tragédias, o primeiro amor sofre-se principalmente por não continuar. Anos mais tarde, ainda se sonha retomá-lo, reconquistá-lo, acrescentar um último capítulo mais feliz ou mais arrumado. Mas não pode ser. O primeiro amor é o único milagre da nossa vida – e não há milagres em segunda mão. É tão separado do resto como se fosse uma primeira vida. Depois do primeiro amor, morre-se. Quando se renasce há uma ressaca. É um misto de «Livra! Ainda bem que já acabou!» e de «Mas o que é isto? Para onde é que foi?».
Os outros amores são maiores, são mais verdadeiros, respeitam mais as personalidades, são mais construtivos – são tudo aquilo que se quiser. Mas formam um conjunto entre eles. O segundo e o terceiro e o quarto, por muito diferentes, são mais parecidos. São amores que se conhecem uns aos outros, bebem copos juntos, telefonam-se, combinam ir à Baixa comprar cortinados. O primeiro amor não forma conjunto nenhum. Nem sequer entre os dois amantes – os primeiros, primeiríssimos amantes. Acabam tão separados os dois como o primeiro amor acaba separado dos demais. O amor foi a única coisa que os prendeu e o amor, como toda a gente sabe, não chega para quase nada. É preciso respeito e bláblá, compreensão mútua e muito bláblá, e até uma certa amizade bláblá. Para se fazer uma vida a dois que seja recompensadora e sobretudo bláblá, o amor não chega. Não se vive só dele. Não se come. Não se deixa mobilar. Bláblá e enfim.
Mas é por ser insustentável e irrepetível que o primeiro amor não se esquece. Parece impossível porque foi. Não deu nada do que se quis. Não levou a parte nenhuma. O primeiro amor deveria ser o primeiro e esquecer-se, mas toda a gente sabe, durante o primeiro amor ou depois, que é sempre o último.
Afinal nem é por ser primeiro, nem é por ser amor. A força do primeiro amor vem de queimar – do incêndio incontrolável – todas aquelas ilusões e esperanças, saudades pequenas e sentimentos, que nascem em nós com uma força exagerada e excessiva. Como se queima um campo para crescer plantas nele. Se fôssemos para todos os outros amores com o coração semelhantemente alucinado e confuso, nunca mais seríamos felizes. É essa a tristeza do primeiro amor. Prepara-nos para sermos felizes, limando arestas, queimando energias, esgotando inusitadas pulsões, tornando-nos mais «inteligentes».
É por isso que o primeiro amor fica com a metade mais selvagem e inocente de nós. Seguimos caminho, para outros amores, mais suaves e civilizados, menos exigentes e mais compreensivos. Será por isso que o primeiro amor nunca é o único? Que lindo seria se fosse mesmo. Só para que não houvesse outro."

Miguel Esteves Cardoso – Os Meus Problemas (1988)

16 de dezembro de 2012

a saudade aumenta a cada minuto que passo sem ti *


tenho saudades de ti. saudades dos nossos momentos. saudades dos nossos momentos bons e dos maus também. tenho saudades das nossas conversas sem pé nem cabeça, saudades das nossas discussões. tenho saudades dos nossos passeios, da nossa vida nada parecida, do teu sorriso quando falavas algo engraçado, da tua cara de ódio, quando mesmo sem querer eu te irritava. saudades do nosso amor intenso, único e todo errado, das nossas manhãs, tardes, noites e madrugadas. tenho saudades do teu ciúme com fundamento e dos sem fundamento também. saudades dos teus medos e da maneira que eu cuidava deles. saudades da maneira como tu te preocupavas comigo, saudades da tua fraqueza, que me dava força para ser forte. saudades do nosso primeiro beijo e do último também. saudades da nossa vida tão igual e tão desigual. tenho saudades de quando tu aparecias do nada e me fazias sorrir pelo simples facto de estar ali. tenho saudades do teu amor intenso, da maneira que tu dizias “eu amo-te” deixando um brilho nos meus olhos. saudades das tuas mãos nas minha. saudades dos meus braços à procura dos teus e dos teus braços procurando os meus. tenho saudades dos planos que fizemos, dos nossos sonhos impossíveis que na nossa vida tentamos juntos construir. tenho saudades de tudo que se realizou e de tudo que não se realizou. as nossas conversas antes de dormir, as nossas palavras doces, as nossas palavras duras e a nossa vontade de ser em do outro. tenho saudades da nossa música que até hoje toca para me fazer sentir mais saudades. saudades dos nossos presentes, da tua vontade encantadora de me surpreender à porta de minha casa. tenho saudades de ti ao meu lado, tenho saudades da tua presença em mim mesmo na tua ausência. tenho saudades de ti fazendo-me chorar e eu fazendo-te sofrer. tenho saudades de tudo o que vivemos e do que não conseguimos viver. tenho saudades da tua maneira de não me saber amar que me fazia sentir a rapariga mais amada do mundo. tenho saudades da nossa dependência um do outro, da nossa forma de esquecer o mundo quando estávamos juntos. da nossa maneira simples de ver a vida. vida que não foi nada simples. tenho saudades de ser só tua. de te pertencer inteiramente, fazendo parte da tua vida, saber o que estavas a fazer e com quem estavas. tenho saudades da nossa história, a mais estranha que alguém já escreveu. tenho saudades do que contamos um ao outro, dos segredos que temos, que escondemos. saudades do meu aniversário, do teu aniversário. saudades do nosso “tempo”, de dançar mas estar a dançar só para ti. tenho saudades do nosso namoro escondido, onde só éramos eu e tu. tenho saudades do nosso amor, das nossas promessas, dos nossos encontros sempre no na mesma rua entre os nossos prédios e de quando quase me obrigavas a pedir à tua mãe para jantar lá ou quando me pedias para passar a ferro. tenho saudades de dizer “amo-te". tenho saudades de ouvir “amo-te". tenho saudades de estar contigo, simplesmente por estar. tenho saudades de tua amizade, da tua força e de tua confiança em mim, em nós. tenho saudades da tua voz, do teu carinho, da tua paixão, do teu desejo, das tuas loucuras, da tua inteligência, do teu talento. saudades de ti quando estavas comigo. saudades de mim quando estava contigo. saudades do nosso casamento que não aconteceu. saudades da casa que não tivemos. saudades da cama que não dividimos. saudades do futuro que não vivemos. saudades de ti. mas o que mais dói do que toda esta saudade é saber que de tudo o que eu sinto saudades está destinado para outro alguém. outro alguém que já odeio antes de existir, outro alguém que não terá a mesma saudade que eu sinto, porque não serei eu. como dizia o poeta “em algum lugar deve existir, uma espécie de bazar, onde os sonhos extraviados vão parar”. acho que os nossos sonhos e planos se extraviaram e foram parar a nenhum lugar, mas na minha mente, nela pararam e não me deixam seguir em frente nem viver, não me deixam sentir saudades de outro alguém. e é por isso que vivo sentindo saudades. saudades de mim, de ti, saudades de nós.

18 de junho de 2012

strong will continue *


"All I do is stay focused 
Looking straight forward at the world and beyond 
I feel people pulling me down 
I feel some pulling me up 
I can't get stuck 
I just keep moving forward 
I got places to go man 
Let's go ", nas.

"Only the strong will continue 

Do you have it in you? ", damien marley.