quando for magra *
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| foto: alice duarte |
Ela é linda. Tem olhos grandes e expressivos, sorriso brilhante e belos quadris. Mas quando sobe na balança e o ponteiro passa do que a sociedade julga aceitável, tudo o que ela tem de bom cai no mar do esquecimento e o foco passa a ser os quilinhos que ela "precisa" de perder. Ela diz que ainda não usa os calções que adora porque antes precisa de ficar magra. Afinal, absolutamente nada fica bonito ou sexy em gente gorda. Ela quer se formar em dança e continuar os estudos em teatro, mas continua a perder mais tempo a contar calorias do que a lutar para realizar o seu sonho. Ela precisa estar magra para viver feliz. Ela queria usar aqueles skinny jeans que viu na montra, mas não – ninguém me vai achar bonita vestida naquilo. Aliás, eu sou gordinha, então não posso ser bonita. E às vezes gostava que alguém lhe dissesse: tu és mesmo linda. Ela não percebe os olhares quando ela passa, porque está ocupada olhando-se no reflexo da porta de vidro e encontrando defeitos sem importância. Ela não se deu conta que aquela amiga magrinha que vive contando vantagem é louca pelas coxas dela. Ela não se deu conta de quanta vida está perdendo pelo simples fato de não ser magra. Aqueles inofensivos quilinhos separaram-na do sonho que sonha todos os dias e todas as noites. Do bolo que não comeu no último aniversário. Do churrasco em família, da praia com os amigos, da sessão de fotografias em que ficou do outro lado da câmara. Os dias dela estão ocupados com inibidores de apetite, aulas de aeróbica e duras sessões de autodepreciação em frente ao espelho. Eu juro que não há (absolutamente) nenhum problema em querer estar bonita – chega de hipocrisia, todos nós queremos. Não há nada de errado em ir ao ginásio ou em estar insatisfeita com o que quer que seja no nosso corpo. Mas há algo de muito errado em condicionar a nossa felicidade. Em guardar a vida para "quando for magra".
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