16 de março de 2013

morte lenta e dolorosa *

foto: filipa duarte
olho-me ao espelho e vejo uma rapariga que só quer dançar. tem o talento, tem a força de vontade, no entanto não tem "o corpo". quem faz da dança a sua vida, tal como eu, sabe o que isso é. sentimos-nos bem quando a nossa professora nos pede para mostrar um exercício à turma, quando nos põe a dançar à frente daquelas "filhinhas de doutores", que treinaram em academias a vida toda. temos as linhas, os pliés, as piruetas, o equilíbrio, tudo é perfeito em nós naquele momento até que ouvimos "encolha a barriga", nós encolhemos mesmo que já o estivéssemos a fazer antes. terminamos o exercício e as meninas invejosas falam de nós como se fossemos uma aberração. até que a professora nos chama à parte e diz "no fim do treino, vá à nutricionista. ela pode ter conselhos para si". o nosso mundo cai. éramos perfeitas, tínhamos tudo, mas a aparência também importa. claro que não vamos à nutricionista, temos demasiada vergonha, medo de sermos julgadas, mas mal chegamos a casa vamos a correr para a frente do espelho. vamos comer e apartamos tudo, mesmo o que é verde e deveríamos comer. a desculpa é sempre a mesma: "não tenho fome". depois de nos deitarmos e mesmo antes de adormecer, dizemos para nós mesmas "amanhã vou passar o dia a queimar calorias", e quando percebemos que é o que costumamos fazer, damos por nós a pensar "a minha mãe não está, não almoço". acabamos por adormecer a pensar em nós mesmas a dançar com um corpo perfeito, aquele que nós mesmas odiavamos por ser demasiado escletico, agora invejamo-lo, e quando acordamos, não há pequeno-almoço para ninguém. começamos a aquecer, e depois vem a bicicleta, até que é hora de almoçar, pensamos "tenho fome". abrimos o frigorífico e os nossos olhos vão diretos para o queijo, comemos uma fatia, duas. sentimo-nos culpadas e dizemos "aumento ao treino". apetece-nos um iogurte e o nosso pensamento mantem-se. comemos o iogurte completamente deliciadas. não podemos parar e vamos logo correr. pensamos que vamos ficar bem e quando damos por nós, continuamos demasiado gordas para comer e estamos demasiado fracas para emagrecer mais. a pergunta surge rapidamente "se mal me consigo segurar nos meus dois pés, como vou dançar na ponta de 1?". vamos para o treino confiantes de que a nossa professora vai dar pela diferença e quando damos por nós, o chão aproxima-se. podera, estamos deitadas no chão, completamente inconscientes. gostaríamos de saber como vamos acabar, mas não percebemos que nos estamos a matar lentamente e ao sonho que tínhamos de dançar.

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